Quais as expetativas para a cimeira do clima no Egipto?

Quais as expetativas para a cimeira do clima no Egipto?
Filipe Duarte Santos
Presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável

A poucos dias da COP27 ter início, em 6 de novembro, em Sharm El Sheikh, o contexto geopolítico que determina as linhas de força da diplomacia internacional é muito tenso.

A guerra entre a Rússia, a Ucrânia e o Ocidente criou uma crise energética que, pelo menos temporariamente, está a fomentar o regresso aos combustíveis fósseis, incluindo o carvão, embora a longo prazo o efeito seja contrário na Europa. Quanto ao metano as notícias mais recentes revelam que os aumentos da concentração atmosférica em 2020 e 2021 foram os maiores desde o início dos registos sistemáticos em 1983. As energias renováveis são as que têm maior crescimento a nível mundial, e a energia solar está a liderar o caminho, mas representam apenas cerca de 12% das fontes globais primárias de energia. O acordo atingido em 2021 na COP26 em Glasgow de diminuir definitivamente o uso global do carvão não está a ser cumprido. Os subsídios para a exploração e uso dos combustíveis fósseis duplicaram de 2020 (o ano mais afetado pela pandemia da COVID-19) para 2021 e, de acordo com a OCDE, continuam a aumentar vigorosamente em 2022, tanto nos países industrializados como nos outros. Em África, o Senegal, Moçambique, Tanzânia e a África do Sul estão a avançar para a exploração de depósitos de gás offshore, a Nigéria tenciona construir um gasoduto trans-sahariano, a Namíbia e o Uganda estão a prospetar novos jazigos de petróleo. Quando os EUA e os países europeus aconselham os países Africanos a travar a prospeção e exploração de combustíveis fósseis a resposta é estarem a trilhar o caminho seguido anteriormente pelos países Ocidentais para assegurarem o seu desenvolvimento socioeconómico e aumentarem a sua prosperidade. Gwede Mantashe, Ministro da Energia da África do Sul afirmou em outubro numa conferência na Cidade do Cabo que "a fome vai matar-nos mais depressa”. Na realidade a África é o continente menos desenvolvido do mundo, responsável por apenas 4% das emissões globais de gases com efeito de estufa (a China, EUA, Índia e a UE contribuem com 27%, 11%, 6,6% e 6,4%), mas é o mais vulnerável às alterações climáticas, especialmente à maior frequência e intensidade dos eventos extremos, devido à grande dependência das economias na agricultura. A Nigéria e o Chade estão atualmente inundadas por chuvas torrenciais que já mataram centenas de pessoas. Os países do Corno de África – Etiópia, Eritreia, Somália, Sudão do Sul e Quénia estão a viver a pior seca dos últimos 40 anos e dezenas de milhões de pessoas estão em risco de morrerem de fome, se não tiverem ajudas humanitárias. Madagáscar e Moçambique foram atingidos por ciclones tropicais e mais de 400 pessoas morreram quando chuvas torrenciais inundaram a cidade de Durban na África do Sul. Grande parte destas ocorrências não chegaram aos jornais Ocicentais.

Um dos temas centrais da COP27 vai ser o chamado “Loss and Damage”, que consiste na compensação financeira por perdas e danos provocados pelas alterações climáticas nos países menos industrializados, os menos responsáveis pelas causas dessas perdas e danos. Os países industrializados não vão aceitar dar uma compensação financeira mas a discussão vai ser acesa. Em sua defesa os países industrializados vão centrar-se em fazer promessas sobre o objetivo coletivo de mobilizar 100 mil milhões de dólares por ano para a ação climática nos países não industrializados, especialmente a adaptação, na condição de haver ações de mitigação significativas e transparência na implementação. Este objetivo data da COP15 de 2009 em Copenhaga mas nunca foi atingido.

Entretanto John Kerry, o delegado para o clima do Presidente dos EUA, percorre o mundo na busca de apoios e de financiamento, especialmente de empresas privadas, para a ação climática global. Queixa-se de que em Agosto de 2022, a China suspendeu as conversações sobre alterações climáticas com os EUA sobre temas como a redução das emissões de metano, desenvolvimento de energias renováveis e ação climática em áreas urbanas, em resposta à visita da Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA a Taiwan. Na verdade, o progresso da descarbonização da economia mundial está a ser e ficará muito mais difícil se a cooperação geoestratégica entre as grandes potências mundiais enfraquecer ou colapsar.

Temos de ter esperança de que a COP27 conduza a alguns sucessos apesar de se realizar numa situação dominada por diversas crises: a crise alimentar em várias regiões do mundo, a crise do aumento dos preços da energia e da inflação provocada pela guerra na Europa, a crise financeira e da dívida, a crise da sobre-exploração de alguns recursos naturais, a crise da perda de biodiversidade e a crise climática. É altura de todos nós no mundo unirmos esforços para assegurar a sustentabilidade da nossa civilização. É altura de atribuir a prioridade máxima à sustentabilidade.

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