O futuro dos plásticos: um desafio ou uma oportunidade?

O futuro dos plásticos: um desafio ou uma oportunidade?
Bruno Pereira da Silva
Head of Circular Economy & Environment do PIEP e Investigador na Universidade Do Minho

Num mundo que enfrenta desafios globais, como o crescimento da população, a segurança alimentar e as alterações climáticas, torna-se necessário que as sociedades escolham soluções mais eficientes para garantir um desenvolvimento sustentável e alavancar a transição de uma economia linear para uma economia circular, onde os plásticos, atendendo às suas propriedades e características únicas, serão capazes de dar um grande contributo para esta transformação societal.

Sabemos que a população global deverá atingir 9,8 mil milhões em 2050, o que nos diz que seremos mais, viveremos mais e precisaremos de mais bens, sendo que, o aumento do uso de recursos, incluindo o plástico, será inevitável. Teremos, por isso, de ter melhores leis, produtos mais sustentáveis, sistemas de gestão de resíduos, melhores comportamentos e, acima de tudo, reduzir, reutilizar e reciclar, independentemente de os produtos serem em material plástico ou de outro tipo de material.

O modelo económico da atualidade, extrair, transformar, descartar, é insustentável, pelo que será necessário adotar uma alternativa que se encontre focada em valorizar os produtos no seu fim de vida. A tomada de decisão da sociedade, de todos nós, será fundamental para alavancar a adoção de um modelo circular que promova a sustentabilidade e a resiliência do nosso planeta. Se os plásticos forem colocados no sítio certo, no seu fim de vida, eles deixam de ser um resíduo e passam a ser uma matéria prima para a produção de um novo produto. Com base no comportamento humano, é possível que os plásticos e outros materiais tenham novas vidas e assim evitemos o consumo de novos recursos do nosso planeta.

Na verdade, o planeta terra, onde vivemos, tem recursos que são finitos, pelo que a adoção de um modelo económico que promova a circularidade dos recursos e a simbiose industrial será fundamental para garantir que a casa comum onde vivemos não seja só nossa, mas também das gerações futuras.

Quando falamos de plásticos, a minha perceção diz-me que a sociedade em geral associa o plástico a um “estigma”, que do meu ponto de vista se encontra relacionado com a falta de perceção de valor que todos nós seres humanos temos deste material que mudou e melhorou a forma como vivemos. O plástico, graças à sua versatilidade e alta eficiência de recursos, tornou-se um material extremamente importante e omnipresente na economia e na nossa vida quotidiana, permitindo ajudar a enfrentar uma série de desafios com que se depara a nossa sociedade.

Desde a sua utilização na produção de componentes para automóveis e aeronaves, onde graças ao seu baixo peso permite poupar combustível e reduzir as emissões de CO2, passando pela sua aplicação como material de isolamento, contribuindo para poupanças nas faturas de energia, até à produção de embalagens de plástico, muito importantes para garantir a segurança dos alimentos e reduzir o desperdício destes.

Porque quando falamos em desperdício alimentar estamos a falar grandes emissões de CO2. Assim, tornou-se um material extremamente importante para setores como os transportes, a embalagem, a construção civil, a energia renovável, o espaço, o desporto, a saúde e os dispositivos médicos.

Gostaria de realçar o papel da indústria que sempre encarou o “estigma” associado ao plástico por parte da sociedade não como um problema, mas sim como uma oportunidade de melhorar processos e de desenvolver novos produtos, mais sustentáveis, reutilizáveis e recicláveis, contribuindo desde logo para que se no fim de vida os plásticos forem reencaminhados pela sociedade para os locais corretos, estes deixem de ser um resíduo e passem a ser uma matéria prima para a produção de novos produtos, numa clara abordagem à economia circular e à simbiose industrial.

De referir que a indústria através da sua associação, a APIP – Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos, tem vindo a desenvolver várias iniciativas relevantes nesta matéria, como o evento internacional Plastics Summit – Global Event 2022, o qual permitiu sinalizar Lisboa e Portugal como o local onde foi realizada a maior conferência do mundo ao nível da sustentabilidade dos plásticos, com a participação de mais de mil pessoas, incluindo stakeholders de toda a cadeia de valor do setor, bem como representantes da sociedade civil, ciência e inovação, e poder político. Foi possível neste evento obter convergência entre as diferentes visões e apresentar soluções abrangentes, que irão permitir criar um futuro mais circular e sustentável, onde os plásticos serão parte integrante da solução. Da cimeira internacional, resultou também uma Declaração de Compromisso que contou com o envolvimento de mais de 80 stakeholders. Esta declaração apresenta um conjunto de recomendações, compromissos e estratégias de ação, na área legislativa dos produtos, no combate à poluição dos oceanos, rotulagem ambiental, neutralidade carbónica e combate às alterações climáticas.

Entendo igualmente que para efetuarmos esta mudança de paradigma, é necessário promover mais informação, sobretudo baseada em dado científicos, de modo a que a sociedade possa optar sempre pela solução que é verdadeiramente mais sustentável. No entanto, considero que a chave está na educação, pois entendo que a educação é o maior elevador social que a nossa sociedade tem, e só assim poderemos criar as bases para a alteração de comportamentos e promover uma geração de futuro onde os seus princípios humanos estejam assentes na promoção da sustentabilidade.

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