Nuno Brito Jorge: A sustentabilidade vai forçar a inovação

Nuno Brito Jorge: A sustentabilidade vai forçar a inovação
Nuno Brito Jorge
Fundador da Goparity

A sustentabilidade vai acabar por forçar a inovação, vai ser o motor da inovação, mas por necessidade. Esta é a visão do fundador da Goparity, Nuno Brito Jorge, partilhada no contexto da terceira talk 2050.Briefing, de que será pivot.

A Goparity tem a sustentabilidade na génese. Qual foi o insight inicial?

A ideia de base da Goparity é empoderar os cidadãos a poderem utilizar o seu dinheiro naquilo em que acreditam. Dar-nos, enquanto pessoas, o controlo sobre aquilo em que o nosso dinheiro é utilizado.

A ideia começou quando eu, depois de bastantes anos a viver fora de Portugal, ao regressar, em 2009, no auge da crise financeira, precisei de escolher um banco e abrir conta para receber o salário. Quando vivi em Espanha e na Bélgica, usava um banco verde, mas, em Portugal, nessa altura, não só não havia bancos verdes, como estávamos exatamente na situação oposta, na crise da banca.

Foi assim que surgiu o bichinho, senti que alguma coisa tinha de ser feita.

Criei então uma oportunidade de investimento num pequeno projeto de energia solar, no telhado de um turismo rural da minha madrasta. Convenci-a a alugar-mo para instalar painéis solares e desafiei quatro amigos a entrarem comigo. Mas, percebemos que, entre nós, não tínhamos dinheiro suficiente, pelo que começámos a falar com a família e outros amigos para nos emprestarem dinheiro. Como vendíamos eletricidade à rede, íamos gerar retorno e pagar uma parte, em juro, às pessoas que nos emprestaram. Foi muito fácil e começámos a perceber que podia haver ali um modelo de negócio.

Investimento com impacto é o mote da startup. Em que medida?

Pegando no exemplo do primeiro projeto, o que acontece é que alguém que empresta dinheiro a um projeto de energia solar sabe, por um lado, o que é que o seu dinheiro está a fazer, em que está a ser utilizado e como está a gerar retorno, e sabe, por outro lado, que está a ser usado em algo que é bom para o planeta, que está a ajudar a descarbonizar, a contribuir para emitir menos poluição atmosférica, a criar resiliência energética, isto é, todo um conjunto de benefícios. Neste caso, há impacto ambiental associado ao investimento.

Que impacto tem tido a Goparity? É possível contabilizar o investimento e o retorno?

Sim, claro. Na Goparity, esse é um dos pontos que mais cuidamos, tentamos ser tangíveis ao passar os indicadores de impacto para as pessoas. Sabemos que os projetos que já foram financiados ajudam a evitar a emissão de 23 mil toneladas de dióxido de carbono, todos os anos. Isto é uma medida que a maior parte das pessoas não percebe, não sabe se é muito ou é pouco, mas quando transformamos em equivalente à plantação de X milhares de árvores já se torna mais tangível.

Também sabemos quanta energia limpa é que os projetos que financiamos produzem todos os anos. Mais uma vez, é difícil perceber se 9 KW/hora é muito ou pouco, mas, se equivalermos este valor ao consumo de Y famílias europeias já estamos a dar maior tangilidade.

Além disso, medimos coisas como os postos de emprego criados – mais de 4500 postos de trabalho –, o número de pessoas impactadas – sabemos que os nossos projetos impactam, direta ou indiretamente, mais de 150 mil pessoas. Medimos, também, a área de biodiversidade e gestão sustentável da floresta que ajudamos a financiar, medimos o número de comunidades que são empoderadas com este financiamento, monitorizamos o número de mulheres em posição de liderança que estamos a financiar. Tudo está disponível no nosso site; sendo ou não utilizador da Goparity, pode-se verificar o impacto que os nossos investimentos estão a ter.

Além do impacto ambiental e social, há o impacto económico. Quem investe que retorno tem tido?

Os nossos projetos têm uma taxa de retorno média de 5,3% ao ano, com uma duração média de cada empréstimo a situar-se nos 3,6 anos.

O que fazemos é financiar projetos diretamente. As pessoas não emprestam dinheiro à Goparity para a Goparity emprestar. Quem investe é que escolhe o que quer financiar, se é numa cooperativa no Equador, num produtor de leite do Uganda ou num projeto de economia do mar no Algarve.

A Goparity já tem, pois, dimensão global?

Sim, já temos investidores de 65 países, se bem que a larga maioria sejam utilizadores portugueses. E temos projetos financiados em 16 países, da Europa, África, e América do Sul.

Estamos a falar de um projeto de banca disruptivo. Em que medida veio mostrar que é possível conciliar investimento com valores e ética?

Esse é precisamente o nosso objetivo: por um lado, mostrar que é possível conciliar e, por outro, dar o acesso às pessoas. Porque pode ser possível conciliar, mas os investimentos continuarem a ser feitos pelos grandes players do mundo financeiro. O que propomos é que as pessoas tenham o direito a participar e a terem parte dos benéficos associados à transição para um mundo mais sustentável.

É descrito como um duplo entusiasta da sustentabilidade e da inovação? O que o entusiasma neste binómio?

É a aplicação duma na outra. Entusiasma-me claramente encontrar formas inovadoras de promover a sustentabilidade. Está em tudo o que faço. Um exemplo é a minha primeira empresa, uma empresa de energia solar, que ainda existe, embora eu já tenha saído. Foi a primeira a comercializar painéis solares em modo Do It Yourself. Enviávamos os painéis para casa dos compradores, com livro de instruções, e eles montavam a estrutura.

Indo mais ao detalhe, move-me a combinação destas duas coisas com a democratização da economia e do setor energético, muito à volta do empoderamento dos cidadãos e do papel que podem ter para acelerar a sustentabilidade.

Não podemos estar sujeitos as mudanças políticas.

Como olha para a sustentabilidade como motor de empreendedorismo e inovação?

A sustentabilidade não implica inovação e a inovação ainda menos implica sustentabilidade. Há muitas coisas inovadoras que até prejudicam a sustentabilidade. Basta pensar no gás de xisto, por exemplo, uma forma inovadora de extrair gás, mas que, do ponto de vista da sustentabilidade, traz muito pouco benefício.

Não são necessariamente combináveis. No entanto, é um facto que há muita inovação que pode ser desenvolvida para a sustentabilidade. E é inegável que, quando é inovação ligada ao aumento da eficiência, estamos a falar de sustentabilidade.

Do ponto de vista holístico, talvez a sustentabilidade venha a ser o motor de inovação por necessidade, porque no fim de tudo, enquanto não percebermos que é o nosso futuro e o futuro dos nossos filhos que está em causa – são lugares comuns, mas é um facto – vamos precisar de muita inovação. A sustentabilidade vai forçar a inovação.

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