A guerra não parou o aquecimento global

A guerra não parou o aquecimento global
Nuno Miguel Bento
Investigador no DINÂMIA'CET-IUL – Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território

As análises sobre os impactos da guerra russo-ucraniana na energia e política climática, cá dentro como lá fora, têm pecado por olhar apenas para a árvore e não ver a floresta.

No último mês, fomos assistindo a uma convergência surpreendente das opiniões sobre os impactos da guerra na energia e possíveis soluções.

O preço do crude e do gás passou a ser a única “bússola” a seguir. Já se admite o aumento do consumo de petróleo e a reactivação do carvão. A energia nuclear passou a ser novamente considerada como alternativa desejada. Praticamente todas as opiniões publicadas concordam com a necessidade de acelerar a instalação de energias renováveis. Mas, na prática, aquilo que os países europeus começaram a fazer foi pedir aos cidadãos para baixar a temperatura do aquecimento dos edifícios e reduzir a velocidade nas deslocações de automóvel. Por que razão os governos não seguiram todos aqueles conselhos?

Os países europeus têm de fazer face a um problema de abastecimento imediato, que, por funcionamento do mecanismo de mercado, ou por especulação, levou ao descontrolo dos preços da energia e, consequentemente, à subida da inflação. Alterar as regras de mercado (algo que merece uma outra reflexão) não é fácil, nem rápido, à luz das instituições internacionais a que pertencemos. Por isso, vários governos europeus emitiram alertas para baixar a temperatura dos edifícios ou conduzir mais devagar como medidas de curto-prazo para aliviar a tensão no mercado. Isto não é novidade, a eficiência energética é uma das principais lições dos choques petrolíferos dos anos 70. A redução do consumo energético permitiu às famílias manter o poder de compra quando os preços estavam altos, mas assim que as tensões aliviaram baixaram os esforços.

É curioso constatar que as análises, nomeadamente em Portugal, despromovem a intervenção no lado da procura de energia para resolver a crise energética. Os que defendem o aumento do uso de petróleo, gás ou carvão estão na prática a sugerir que se recorra a países pouco democráticos e se esqueça o problema ambiental. Aqueles que advogam pelo investimento na energia nuclear não mencionam que a construção das últimas centrais (p. ex. em França ou na Finlândia) demorou décadas e custou mais de cinco vezes o orçamento inicial. Acresce que o principal fornecedor de urânio é o Cazaquistão, num “top10” que inclui vários países da antiga URSS, incluindo a própria Rússia. Já no que toca às energias renováveis, é verdade que são cruciais para a transição energética. Mas, no caso de Portugal, ainda representam apenas 30% do consumo final de energia e será necessário tempo para que essa percentagem atinja os 90%, 95% ou eventualmente 100%. Alguns aludem a tecnologias de emissão negativas, tais como de captura e sequestração de carbono, como solução (quase milagrosa) para a redução das emissões. Mas, estas tecnologias estão ainda em desenvolvimento, são caras e o seu potencial é incerto, não respondendo à crise energética actual. Finalmente, a eficiência energética tem tido um papel fundamental no controlo da procura de energia no curto-prazo. Apesar de isso ser largamente reconhecido, o seu papel é frequentemente secundarizado em favor de outras opções.

Existe uma série de exemplos que mostram que é possível reduzir o consumo de energia, de modo económico, sem afectar o acesso a bens e serviços. A existência de transportes públicos de qualidade protege a população face aos riscos de crises nos combustíveis. Para deslocações mais longas, um serviço ferroviário de qualidade pode substituir tráfego rodoviário e aeroviário com maior eficiência. Dentro das localidades, a micro-mobilidade, a mobilidade partilhada e activa (pedestre ou ciclística) podem complementar os transportes públicos e constituir alternativas viáveis ao uso da viatura individual com ganhos de tempo e de dinheiro. Por outro lado, a reconstrução dos edifícios reduz a factura e a pobreza energética. A reorganização dos equipamentos (p. ex. aquecimento e arrefecimento) ao nível dos edifícios pode melhorar a eficiência e reduzir os custos para as famílias. Na indústria, refira-se o redesenho dos bens, tais como produtos electrónicos, de modo a torná-los mais duradouros e menos intensivos em energia e materiais. Produtos esses que, inclusivamente, possam permitir usos novos, como a utilização partilhada. Ainda é dada pouca atenção em Portugal a tendências transversais, como a economia da partilha ou a digitalização, que podem melhorar a eficiência e a competitividade de diferentes sectores.

Os próximos meses serão fundamentais para se perceber como as crises sanitárias e a guerra despoletam mudanças duradouras que permitem proteger os níveis de bem-estar, ao mesmo tempo que respondem ao desafio climático. O último relatório do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas, apresentado no início de Abril, evidencia que é possível reduzir 40 a 70% das emissões até 2050 agindo do lado da procura da energia. Estas medidas são variadas (algumas delas não foram aqui abordadas, como a mudança das dietas) e estão ao alcance de todos os países. Assim como, no final do século XIX, os problemas económicos e ambientais levantados pela utilização massiva de cavalos para transporte nas cidades não foram resolvidos pelas melhorias no feno, a resposta à crise energética e climática exigirá repensar a organização do modo de aprovisionamento dos principais bens e serviços.

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