Resiliência do setor energético contra eventos extremos: monetização e planeamento

Resiliência do setor energético contra eventos extremos: monetização e planeamento
Ricardo Bessa
Investigador Sénior e Coordenador do Centro de Sistemas de Energia do INESC TEC

A invasão militar da Ucrânia pela Federação Russa foi um evento de baixa probabilidade e elevado impacto, com os setores energéticos da grande maioria dos países ocidentais a demonstrar uma reduzida resiliência, fundamentalmente devido à elevada dependência do petróleo e gás natural russo. No caso português, a dependência do gás natural russo é marginal (mas tem vindo a aumentar, 2% em 2019, 10% em 2021), no entanto, estamos expostos ao aumento generalizado dos preços do gás natural e combustíveis derivados do petróleo.

Para esta tipologia de eventos é cada vez mais importante um planeamento a médio e longo-prazo do setor energético, considerando o efeito das alterações climáticas, ataques terroristas, ciberataques. Neste contexto, um conjunto de transformações tecnológicas, regulatórias e culturais deverão ser promovidas, nomeadamente: (1) definir medidas/políticas preventivas com base na quantificação numérica do risco (probabilidade e impacto) associado a um conjunto de eventos, evitando definições erróneas ou políticas do conceito de risco; (2) monetizar a resiliência do setor energético, nomeadamente avaliar quantitativamente quanto os consumidores estão dispostos a pagar por um reforço da resiliência a eventos de baixa probabilidade e elevado impacto. É neste segundo ponto que reside a necessidade de uma alteração cultural no sentido de perceber que estes eventos serão cada mais frequentes (por razões naturais e/ou humanas) e, por essa razão, os cidadãos devem estar preparados para suportar os custos de uma maior resiliência energética, e contribuir para uma maior flexibilidade e racionamento do consumo de energia. Um aumento da resiliência obriga necessariamente a custos mais elevados para os consumidores, mas reduz a exposição a cenários extremos como estamos a viver atualmente.

A título de exemplo, nesta década é inevitável a presença de centrais a gás natural de ciclo combinado e o seu descomissionamento deverá considerar o impacto das alterações climáticas que irão influenciar, de forma não-marginal, a produção de base renovável (eólica, solar e essencialmente a hídrica), como aconteceu com o fenómeno El Niño. A aposta em recursos endógenos, como a produção de energia elétrica de base renovável ou gases renováveis (hidrogénio, bio metano), é o caminho natural. No entanto, é necessário compreender que estes recursos endógenos apresentam uma natureza sazonal e podem sofrer alterações geográficas significativas, tornando-se necessário aumentar a elasticidade do consumo de energia elétrica a sinais ecológicos e/ou económicos de forma a reduzir o custo económico-ambiental de manter tecnologias de produção de energia elétrica com emissões de CO2.

Em suma, não existem soluções milagrosas, nem a tecnologia é unicamente a solução. Será necessária uma combinação de novas tecnologias, regulação e políticas públicas, e a criação de indutores para aumento da flexibilidade do consumo de energia elétrica. A elasticidade do consumo a fatores socioeconómicos e demográficos será a nossa maior garantia para eventos extremos cada vez mais frequentes.

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