O tempo da energia barata está no passado

O tempo da energia barata está no passado
Rui Mayer
Advogado

Não é novidade para ninguém que os recursos energéticos de que a Europa dispõe não são suficientes para satisfazer as suas necessidades, pelo que é necessário colmatar esta deficiência através de importações. Tendo esta constatação como ponto de partida, as decisões tomadas para resolver o problema, baseadas num misto de premissas económicas e ambientais, resultaram na criação de uma dependência face a determinados produtores, sobretudo da Rússia.

Com efeito, a enorme dimensão das reservas russas de gás natural e de petróleo, que estão acessíveis por pipeline, que é um modo relativamente fácil, seguro e barato de transportar estes produtos para os centros consumidores, criou condições para que a Rússia se tornasse o fornecedor preferencial de vários países do centro da Europa.

O problema é que as premissas usadas para sustentar estas decisões assentavam num pressuposto básico, que malevolamente poderíamos qualificar como tipicamente neo-liberal, de que a estabilidade e a apetência pelo crescimento económico seriam suficientes para assegurar o equilíbrio geopolítico necessário para que esta solução fosse sustentável a longo prazo. Infelizmente, o actual conflito entre a Rússia e a Ucrânia veio demonstrar que essas premissas estavam erradas, o que já vinha a ser apontado sobretudo pelos Estados Unidos. Mas discutir sobre as razões que levaram a que a actual crise se desencadeasse será, sem dúvida, um exercício interessante para outro local e momento.

A Europa parece estar a ganhar consciência de que terá de rever o quadro fundamental em que assentaram as suas orientações em termos de abastecimento e produção de energia. Parece claro que será necessário diversificar as fontes de abastecimento de hidrocarbonetos, para evitar a repetição de situações de dependência exagerada. Em simultâneo, será necessário revisitar todo o conjunto de pressupostos estratégicos que têem condicionado as opções de investimento em produção de energia. Assistiremos a um reforço das opções relativas a fontes renováveis, sobretudo a produção eólica e solar, mas também a geotérmica, onde tal seja possível. A produção hídrica deverá ser incrementada, apesar de até há pouco tempo ser considerada uma opção a não considerar tendo em atenção os custos ambientais. Iremos certamente repensar o nuclear, desde que sejam salvaguardadas as evidentes questões de segurança relacionadas com a operação e com a custódia e conservação de resíduos. Possivelmente vamos também assistir a uma reanálise dos calendários de implementação de alguns objectivos de transição energética, para permitir a distribuição do esforço de investimento que será necessário efectuar e reduzir o ritmo de descontinuação da produção com base em carvão. Serão incrementados os esforços de investigação sobre soluções alternativas, sobretudo a melhoria da eficiência e a recirculação das baterias de lítio, e o hidrogénio.

Uma coisa é certa: o tempo da energia barata está definitivamente no passado, e será necessário um esforço muito grande de reconversão dos sistemas produtivos da Europa.

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